FUTURO

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Adélia Sampaio leva “Amor Maldito” para Mostra de Cinema e Diversidade

14 de agosto de 2017

Adélia Sampaio é uma das poucas mulheres que chegaram à direção de longas nos anos 1980. Travou uma batalha com o cinema brasileiro, que naquela década representava as mulheres, pessoas negras e com orientações sexuais diversas de forma estereotipada. Sob a bandeira da pornochanchada, havia a objetificação do corpo das mulheres, em maioria heterossexuais, definindo o ideal em corpos brancos, magros e bronzeados de praia – excluindo qualquer padrão fora da curva.

“Amor Maldito” (1984), seu primeiro longa-metragem, é também o primeiro dirigido por uma mulher negra no Brasil. O filme, com temática homossexual feminina é baseado em uma história real, faz parte da programação da Mostra Cinema e Diversidade, que celebra o Mês do Orgulho Lésbico no Oi Futuro, em parceria com o Grupo Arco-Íris e o Cineclube LGBT.

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Adélia no set | Foto: Arquivo pessoal

Conversamos com Adélia sobre a história que o preconceito quase apagou.

A HISTÓRIA QUE O PRECONCEITO QUASE APAGOU

Num período onde o cinema brasileiro era dominado por homens, e marcado pelas pornochanchadas, Adélia veio como pioneira ao fazer o filme “Amor Maldito” (1984). Aliás, Adélia é o nome principal na direção de longas dirigidos por mulheres e dedicados ao tema. Na época, o dono do Cine Paulista, que se dispôs a lançar a produção, propôs que o filme fosse anunciado como pornochanchada para que a divulgação de porta de cinema desse certo. Aceitar foi a forma que Adélia encontrou para que seu filme tivesse espaço em uma sala de exibição: nenhum outro cinema queria exibir o longa.

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Cena do filme “Amor Maldito”

“Compramos a briga e um crítico de cinema da época, Leon Cakoff, escreveu uma crítica denunciando e perguntando ‘por que um filme com abordagem séria e sociológica está travestido de filme pornô?’. Depois desta crítica, o circuito cresceu e não tivemos mais problemas pelo Rio”, lembra Adélia. A cineasta ainda lamenta que mesmo após 33 anos do lançamento de “Amor Maldito” o cenário continua quase o mesmo: “Quando briguei para realizar o filme era acreditando que a homofobia e a violência doméstica alertasse as pessoas, mas me estarreço hoje ao ver que tudo que abordo no filme não mudou quase nada.”.

Aos 73 anos, Adélia continua buscando e apoiando a representatividade das minorias, seja em palestras, na vida ou em debates.

“Prossigo lutando e agora muito feliz quando num debate uma jovem negra se levanta e diz ‘desde que nasci procuro um espelho para me ver e finalmente achei a senhora’. É claro que vou às lágrimas. Foi tudo muito difícil, mas hoje olho para meus filhos, meus netos e vejo que valeu a pena acreditar. Tenho como filosofia de vida um trecho de Maiakovski: “Por mais negros que forem os dias, na minha rua haverá felicidade”, celebra Adélia. “Eu creio piamente nisso”.

CINEMA NO PÁTIO: MOSTRA CINEMA E DIVERSIDADE

O Programa Educativo do Oi Futuro fechou parceria entre o Grupo Arco-Íris e o Cineclube LGBT para realizar a Mostra Cinema e Diversidade, com produções nacionais que abordam diversas questões de sexualidade e gênero. A mostra, que começou no dia 8 de Agosto, tem filmes todas as terças do mês, entrada franca, finalizando com a mesa de debate sobre “Cinema Lésbico Brasileiro”, com Adélia Sampaio e mediação da pesquisadora Marília Xavier. Dá uma olhada na programação:

 

Dia 15 de agosto:

“Kátia”, de Karla Holanda – 74 min
Nascida José, em Colônia do Piauí (CE), com 8 mil habitantes, Kátia tornou-se a primeira travesti a ser eleita a um cargo político no Brasil. O filme é resultado de 20 dias de convívio com ela.
Classificação etária: livre

Dia 22 de agosto:

“O Chá do General”, de Bob Yang – 22 min
“A Arte de Andar pelas Ruas de Brasília”, de Rafaela Camelo – 18 min
“Thai”, de Lucas Padilha – 19 min
“Páginas de Menina”, de Monica Palazzo – 19 min
“A Cor do Fogo e a Cor Da Cinza”, de André Félix – 24 min
Classificação etária: 16 anos

 

Dia 29 de agosto:

“Amor Maldito”, de Adelia Sampaio – 76 min.
Primeiro longa brasileiro dirigido por uma mulher negra, narra uma história trágica de amor.

Classificação etária: 16 anos
Mesa de debate: “O Cinema Lésbico Brasileiro” com a diretora Adelia Sampaio e mediação da pesquisadora Marília Xavier

Toda terça-feira, 19h | Área Externa | Entrada franca
*Distribuição de senhas 30 minutos antes