FUTURO

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“AMOR” – Entrevista com Denise Carvalho

6 de maio de 2016

AMOR
A brasileira Denise Carvalho, que divide a curadoria da exposição com a polonesa Monika Szewczyk, fala sobre a mostra, no Oi Futuro Flamengo. Obras de artistas mulheres do leste europeu retratam as perspectivas contemporâneas do feminino.

 

OF. Como surgiu a ideia de realizar a exposição?

DC. A exposição surgiu há uns anos atrás quando estava escrevendo sobre a ideia do amor como algo que se sente à beira do abismo. Pensando na pintura de Klimt, O Beijo, o abraço masculino parece comprimir a mulher em seu anseio de resgatá-la do perigo do abismo. O abismo está sempre presente em situações em que refletimos no outro algo que desejamos. Tanto essa ideia do abismo era importante que foi parte do título da exposição na Galeria Arsenal Power Station, em Bialystok, Polônia, “Love on the Edge” (uma redução do título original “Love on the Edge of the Abyss”). Esta ideia da junção do amor e do abismo é bem clara na projeção de Iza Gustowska, Rose, em que a Ofélia de Millais é surpreendida pela morte num momento de inocência, ou o vídeo Kiss, de Anna Jermolaewa, em que um casal usando máscaras de Mickey Mouse, se beijam tanto até que começam a se morder, despedaçando as suas máscaras. A exposição nasceu dessa ambivalência que começa no amor, mas penetra todas as camadas da vida, desde os contextos familiares aos sociais, políticos, históricos e ideológicos. O amor nesta exposição é a vontade de encontrar um espaço intermediário e interativo, entre o ideal do amor como algo perfeito e o inevitável da vida, entre uma expressão íntima e uma ação incontrolável, devastadora. Esse local do meio, que não é nem aqui, nem lá, é exemplificado também pela sexualidade se descobrindo no trabalho de Mare Trall, cuja vivência na Estônia nos revela uma cultura altamente moralista e retrógrada. O amor como necessidade de ação, de intervenção, de agenciamento, passa a ser esse espaço de interação, reflexão, ou interrupção de situações, tentando extinguir ou atenuar os traumas de pós-guerra ainda existentes nas violências culturais que alienam através de seus estereótipos. Esses traumas podem ser transformados através das Constelações de Bert Hellinger, no trabalho de Anna Baumgart, por exemplo, criando uma distância entre o que não pode ser esquecido ou perdoado na realidade, mas pode ser transformado na imaginação e na linguagem. O amor também é ação como as implosões de usinas elétricas ao som de música cubana, ou como acampamentos informais de refugiados sírios documentados pelas imagens de Magdalena Jetelova. O amor se dá nos trabalhos e processos de arte que são também atos de testemunha ou de intervenção da imagem, que nos permitem perceber pequenas conexões e interferências do dia-a-dia como também de diversas histórias, como o genocídio de Srebrenica no trabalho de Duba Sambolec, ou a fragilidade humana vivida à beira do amor, nas fotos projetadas de mães sem teto de Alla Georgieva.

OF. Por que o título “Amor”?

DC. Como já disse, o amor traduz tanto a fragilidade humana como sua força, é capaz de destruir como construir. Em nome do amor guerras são proclamadas, e em nome do amor também definimos novas fronteiras. O amor se faz na invisibilidade do dia a dia na vida de uma mãe, por exemplo, como também se faz no encontro terno entre espécies.

OF. A mostra já foi exibida em outros países? Se positivo, como foi a reação do público diante de imagens tão fortes e reais, com uma temática tão presente no universo feminino contemporâneo?

DC. Sim, a mostra foi feita na Polônia em 2015, na Galeria Arsenal Power Station, em Bialystok. Seria muito interessante se esta exposição pudesse ser mostrada em outros países, navegando entre outros contextos, criando novas possibilidades de interação.

OF. Conte um pouco sobre o trabalho de curadoria realizado junto com a Monika Szewczyk.

DC. A Monika e eu temos trabalhado juntas há vários anos. A minha primeira curadoria na Polônia foi na galeria dela, onde mostrei artistas internacionais lidando com o tema Hybrid Dwellings (Subsistêmcoas Híbridas). Isso foi em 2001. Depois disso co-curamos a exposição Minimal Differences (Diferenças Mínimas) na Galeria White Box, em Nova York, enfocando a situação de países da Europa Oriental que se tornaram membros da União Europeia. A exposição tratou da questão da subjetividade absurda no mito da inclusão ou da afiliação, ou demonstrada por várias possibilidades em que esta inclusão ou exclusão se faz em vários contextos, como nos contextos políticos e sociais na imaginação de grupos distintos, inclusive na história e no mercado da arte.

OF. Como as artistas que participam desta exposição retratam décadas de regime comunista?

DC. The Meeting (O Encontro), um filme de Kristina Inciuraite, por exemplo, lida com a necessidade de apagar as tensões que existiam em sua adolescência vividas numa época em que a Lituânia era parte do Bloco Soviético. A vontade de conectar com pessoas de sua adolescência vividas na praia de Svetlogorsk, em Kaliningrado, fez com que ela se tornasse membro de um site de relacionamentos. Nas conversas que ela teve com uma mulher no site, a artista relembra os momentos de tranquilidade e sociabilidade vividos na época, apesar das tensões existentes no dia a dia. Um outro trabalho interessante sobre a opressão da União Soviética é o da artista de Uzbequistão, Ira Eduardovna, que lida com a questão do uso do idioma Russo como tática de controle e de lavagem cerebral de vários países da Europa Oriental, como também de seus próprios cidadãos. Seu vídeo To Prague with Love lembra dos programas de correspondência institucionalizados pela União Soviética em países de seu controle, como a Checoslováquia. No vídeo, Eduardovna revive situações de controle da linguagem fazendo uma analogia entre a televisão como sistema de controle da informação e as táticas de controle cultural e ideológico estabelecidas pela União Soviética.