FUTURO

Cabeca de sangue

Cinco obras de arte que retratam a passagem do tempo

14 de novembro de 2017

Flores são belas – até murcharem. Não para o artista plástico japonês Makoto Azuma, que enxerga no processo uma forma de meditar sobre a impermanência na vida. Entre setembro e novembro, os visitantes do centro cultural do Oi Futuro presenciaram a lenta decomposição de flores guardadas em um cubo transparente de 20 metros e de ramalhetes dispostos no Aterro do Flamengo, ambos parte da mostra de arte pública Outras Ideias, mostra de arte pública organizada pelo curador Marcello Dantas.

Azuma traz a visão oriental, com influências do Budismo, que vê a pessoa através da própria vida, com diversas passagens e reencarnações, com uma evolução constante onde o velho não é feio, descartável ou substituível; é belo, assim como na metáfora das flores, mesmo durante todo o processo de decomposição”, explica Alberto Saraiva, curador de Artes Visuais do Oi Futuro.

 

Se interessou pela sacada e quer curtir mais exemplos disso na arte, já que o Outras Ideias, como tudo na vida, foi impermanente – ou seja, já acabou? Confira abaixo cinco dicas de símbolos artísticos que falam sobre impermanência e efemeridade em suas obras para saciar – e, ao mesmo tempo, aguçar – a sua curiosidade:

1 – Flores – de novo

Azuma nos permitiu ver a decomposição das flores ao longo de uma passagem de tempo – mas ele não foi o primeiro a exibir a beleza natural para nos lembrar de que tudo passa. As naturezas-mortas tratam basicamente disso. Fica difícil de notar à primeira vista, mas dê uma olhada mais esperta quando encontrar uma, como o “Natureza morta com um buquê sendo feito” (1674), de Dirk de Bray: o vaso está meio cheio (ou meio vazio, dependendo do seu estado de espírito), as tulipas estão meio caidonas, uma borboleta e uma lagarta circundam as plantas: nada, nem mesmo o viço da beleza, permanece, tudo muda – e a lagarta feiosa que ameaça o buquê em breve vai virar uma linda borboleta que vai enfeitá-lo. 

A pintura está na Mauritiushaus, que tem mais dois motivos que interessam a quem for brasileiro para ser visitado, em Haia, na Holanda: a primeira é que funciona na mansão do “nosso” Maurício de Nassau, governador do Nordeste na ocupação holandesa. A segunda é que nela está a primeira pintura de tela feita por um profissional na história do país. É de Frans Post, artista da comitiva da Nassau.

flores
 

2 – Segura a vela

Sabe “Vanitas”? Significa “vaidade” em latim. Antes que você comece a dar uma de capitão Nascimento e enumerar “do inglês vanity, do francês vanité…”, explicamos: a palavra vem do início do Eclesiastes, do Antigo do Testamento: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade…” e designa um tipo de pintura em que você coloca uma porção de símbolos de riqueza e luxo material, mas ao lado de símbolos da passagem do tempo, para lembrar que tudo isso não é permanente. Assim, se você topar com uma pintura com uma vela acesa em cima de uma mesa ao lado de uns objetos que gostaria de levar para a casa, já sabe o que significa. Aliás, por falar em Capitão Nascimento, outro símbolo muito usado nas Vanitas é a…

3 – Caveira, meu capitão!   

Essa é fácil de entender, né? O corpo se decompõe, o importante é a alma. É por isso que aparecem tantas caveiras, tanto em bodegons quanto em outras pinturas do ocidente, como, vamos ver… o “São Jerônimo” de Caravaggio, em que o vetusto ermitão molha a pena ao lado de um caveirão de assustar oficial do Bope. É uma pegada um pouco pesada em comparação às flores do Azuma. Mas ficava a dica: estamos aqui só de passagem.

4 – Uma cabeça de mentira feita com 4 litros de sangue de verdade

Sigamos o papo craniano com uma referência mais atual: o artista britânico Marc Quinn, do grupo Young British Artists, que chacoalhou a cena artística inglesa na década de 1990.  Ele começou em 1991 a obra em série “Self”, onde produziu uma réplica de sua própria cabeça com cerca de 4,5 litros do próprio sangue – extraídos ao longo de cinco meses. A cada cinco anos o artista produz uma “cabeça” nova para documentar a própria transformação e o seu envelhecimento. Eca? Pois saiba que um dos autorretratos já foi adquirido por 300 mil libras e a obra já fez parte da exposição permanente da National Portrait Gallery, em Londres.

Cabeca de sangue

5. Stalkeando a maçã

Depois de voltarmos ao presente, vamos voltar ao Oi Futuro. Referência na confluência entre a arte e a tecnologia, a artista Regina Vater retornou ao Brasil, depois de morar por 20 anos nos EUA, para uma retrospectiva no centro cultural do Oi Futuro no Flamengo. Em “Regina Vater: Quatro Ecologias”, ela criou a webinstalação Desire (2012) especialmente para a mostra, e nela onde uma maçã se decompunha ao longo do tempo, enquanto era filmada e transmitida ao vivo na internet.

Mas cuidado:  o impermanente pode simplesmente acabar. Uma coisa é a mudança permanente. Outra é o desaparecimento do que está sempre mudando. Esse é um alerta que está em “Wishful Thinking”, instalação que vai ficar na entrada do Oi Futuro, na exposição de Miguel Rio Branco, com inauguração no dia 16: do jeito como vivemos e nos relacionamos com a natureza, não vai sobrar nada. Esperamos você para conferir como a relação entre arte e natureza está também sempre se renovando.