FUTURO

minotauros

ENTRE ARTE E POESIA

2 de maio de 2017

O artista visual carioca Cyriaco Lopes, radicado em Nova York e com obras ao redor do mundo, e a premiada poeta americana Terri Witek apresentam a exposição “Minotauros”. A mostra é a primeira da dupla no Brasil, tem curadoria de Alberto Saraiva e integra o Programa Poesia Visual.

 

OF. Vocês trabalham juntos desde 2005. Como aconteceu esta parceria que anda rendendo tantos frutos, especialmente, na Poesia do Campo Ampliado?

CL. Eu e a Terri nos conhecemos quando éramos colegas na Stetson University na Florida. Fomos apresentados por uma amiga em comum, uma historiadora da arte. Eu fazia um trabalho de artes visuais que usava muito texto e a Terri escrevia poesia ekphrástica, que é a poesia vinculada à imagens. Chegávamos por caminhos diferentes a um mesmo cerne de pesquisa, esse espaço instável entre imagem e palavra, onde as palavras não descrevem e as imagens não ilustram. Estão ambas em estado de opacidade. Por causa desses interesses afins passamos a nos reunir toda quarta no meu atelier. Não tínhamos nenhum objetivo outro que a pesquisa, a invenção. E assim foi nos primeiros anos. Trazíamos coisas um para o outro, coisas que fazíamos, coisas que gostávamos. Lembro muito do dia em que a Terri trouxe o Robinson Crusoé da Elisabeth Bishop, por exemplo. Um poema de uma autora estadunidense que nele lembra do Brasil, e da brasileira que ela amava. Tinha usado esse poema num trabalho que fiz no meu primeiro ano nos EUA, mas essa leitura juntos teve outra ressonância. Afinal a Terri é também uma poeta estadunidense que viveu no Brasil. Eu sou também esse desterrado que lembra de um certo idílio. E o poema também me fala de uma perspectiva queer. Coisas assim aconteciam todas as semanas, todas as quartas. E só para nós dois. Tive o privilégio de ver várias peças-poemas da Terri que ninguém viu. E organicamente começamos a colaborar. Eram em primeiro respostas aos encontros. Coisas que reverberavam de uma semana para a outra. Depois começamos a fazer performances juntos. E assim, sem percebermos venho essa terceira entidade, nem eu nem ela, que produz as suas próprias coisas, que tem suas próprias preocupações. É um monstro como o minotauro, feito de partes díspares. Divino e selvagem ao mesmo tempo.

OF. Nesta mostra no Oi Futuro, os trabalhos exploram a combinação de imagem e texto em várias formas – de gifs até animações digitais, vídeo e, até mesmo um labirinto, feito de fotos. Como surgiu esta ideia tão criativa?

CL. Trabalhamos um com o outro num sistema retroalimentador de pergunta e resposta. Ou então criamos situações abertas para nós dois, e para o público. Por causa disso temos muita autonomia em nossas colaborações. Cada um tem um espaço de criação; espaços que são costurados, aparafusados, ou sobrepostos em veladuras. Por causa disso o processo é muito importante, sempre uma negociação entre acaso e escolha. Na série chamada Os Minotauros andei por Creta fotografando oliveiras, peças arqueológicas, o mar, enquanto Terri escrevia sobre suas experiências diárias nessa casa centenária nas montanhas de Creta onde fazíamos uma residência artística e que tinha sido no passado uma fábrica de azeite de oliva. Cada um com sua liberdade. Depois texto e imagens se entrelaçavam, mas conservando seus mistérios próprios. É mesmo uma colagem de mistérios. A sua superimposição é que cria um límpido poço sem fundo. E nossas colaborações são também os traços de nossa amizade. Desde que aceitei o cargo de professor na City University of New York, há 8 anos, não moramos na mesma cidade. Mas nos vemos muito. Damos aulas juntos num programa literário em Lisboa todos os anos, o Disquiet International, e também lecionamos juntos num mestrado a distância da Stetson University em Poesia do Campo Ampliado, um mestrado que foi criado como reflexo da nossa prática. Esse mestrado se encontra todo Janeiro no Atlantic Center for the Arts, uma residência incrível na Florida, perto do mar, no meio de uma área de preservação ambiental, e depois em Junho, onde nos encontramos sempre em um país americano diferente (no México ano passado, no Chile esse ano). Então esses países onde nos encontramos, essas experiências que vivemos juntos, essas vidas todas vão se coalescendo em projetos, traços de nossas vidas, meio pegadas. A exploração de várias mídia nos nossos trabalhos reflete a nossa curiosidade, é uma continuação coerente dessas vidas que meio escolhemos, meio deixamos à deriva. O labirinto de águas, Correntes/Currents, é fruto direto dessas viagens. Tem fotos de águas do Rio, de Nova York, de Miami, de Istanbul, de Berlin, de Paris, de Creta, da Armênia, de Roterdã, etc. É uma pororoca do passado, já que águas dos nossos passados – do Brasil, da Flórida, de Ohio, etc. – correm para o presente, desaguam no agora. Costuramos esse elemento mais fluido, as águas, num labirinto, inclusive com ressonâncias históricas, de águas do novo mundo e do velho mundo, por exemplo. Não fazemos um trabalho confessional, ou diarístico, mas todos os trabalhos são essas pegadas, são esses traços de nossas experiências, das nossas curiosidades, ou como no programa em Portugal, do nosso desassossego.

OF. Terri, você morou no Brasil e tem muitas referências ao país, em seus livros.  Conte-nos  algo interessante desta passagem por aqui.

TW. O ano que passei em Recife quando tinha 17 anos mexeu muito comigo. Meu maior talento e o consolo da minha infância era a leitura – eu amava tudo que fosse verbal. Foi então, como uma menina do interior, monolinguista de inglês e que nunca tinha nem mesmo viajado de avião, que tornei-me imediatamente muda no Brasil – o Português era lindo de doer mas completamente opaco para mim. Na minha primeira noite tentei dizer a um rapaz com quem dançava que minha paixão era a “literatura.” Mas não conseguia dizer a palavra, nem ser entendida: ele balançava a cabeça incerto. Estou perdida, pensei. Mas esses 6 meses de mudez mudaram-me para sempre. Me tornei muito quieta, muito boa ouvinte. O dia em que finalmente entendi os gritos do vendedor ambulante, que entendi que a frase “já caiu mangaba” escondia dentro de si ambas a ‘jaca’ e o ‘caju’ , o mundo se abriu como outra fruta cujo sabor delicioso era completamente novo. Uma das primeiras coisas que Cyriaco e eu fizemos um para o outro foi uma versão de cores dessa canção do vendedor de frutas, uma canção que retornou a minha boca quando nos conhecemos. Esse pequeno detalhe, essa canção de que me lembrei subitamente, e a qual ele me devolveu como cores, diz muito sobre quando cheguei ao Brasil, desse presente que recebi de forma singela, desse Brasil que o Cyriaco me representeou décadas mais tarde. Deixei a quem fui aos 17 anos em algum lugar – a vida nos ocupa tanto – mas entre muitas outras coisas de que sou grata a nossa amizade é que Cyriaco trouxe de volta o Português para o meu corpo como a pedra rolada da tumba de Lázaro. Ele também me devolveu um Brasil que não conhecia – em seu curso sobre Arte na América Latina encontrei esses artistas maravilhosos conceituais/poetas como os irmãos Campos. Nós lemos Clarice juntos, e Machado. E eventualmente vagamos de volta ao Brasil juntos, quando reencontrei minhas queridas ‘mãe’ e ‘irmã’ da casa onde estive um dia, num abraço cheio de contentamento. Esse ano tão distante está emaranhado na nossa dupla como a dor e o prazer simultâneos de saber e não saber uma língua.

OF. O que o mito de Ariadne significa para você e, especialmente, no contexto de sua obra?

TW. Ahh – Ariadne. Bem, aquela com quem me debati tanto é a protagonista do meu livro EXIT ISLAND, que inclui uma suíte linda de imagens do Cyriaco. Ela também está emaranhada no nosso primeiro encontro – confessei que estava tendo dificuldade em escrever sobre ela, e Cyriaco anunciou que acabava de chegar da sua casa em Knossos. Ele falou isso como quem resolve um problema  – e na verdade ele mais ou menos resolveu, já que esse viria a ser meu primeiro livro incluindo poesia visual. Ariadne é tanto uma flaneuse, quanto uma fugitiva e ela escapa através/contra múltiplas águas. Quando atravesso nosso labirinto, Currents/Correntes, sinto-me como ela. E claro, seu irmão batiza a nossa exposição no Oi Futuro. Nossos Minotauros são literalmente a colisão de imagens e textos que começamos em Creta: esse objetos visíveis que podem ser pendurados em quaisquer paredes. Mas são também metáforas para todas as dessemelhanças em colisão: o jeito mesmo, tão contente, em que eu e Cyriaco nos conhecemos e como temos trabalhado desde 2005.