FUTURO

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Entrevista nos bastidores com Aderbal Freire-Filho

4 de novembro de 2016

Um do mais importantes nomes da cena teatral brasileira fala sobre a montagem do espetáculo “A Paz Perpétua”, em cartaz no Oi Futuro Flamengo.

OF. Quais as diferenças entre o Aderbal autor,  o Aderbal diretor, o Aderbal ator, o Aderbal apresentador de programa de TV?

AFF. As diferenças entre o autor, o diretor e o ator, são as diferenças próprias de cada um desses meios de expressão no teatro – a atuação, a dramaturgia, a encenação – mas todas são ligadas por uma mesma matéria (ou pasta base): a paixão pelo teatro.
Como no samba, não sou eu que me navego nesse mar, quem me navega é esse mar. Eu comecei ator, querendo ser autor. Me tornei, sobretudo, diretor. Hoje, espero navegar igualmente como ator, diretor e autor.

Como diretor, me sinto também autor: nós, os diretores, buscamos abrir o palco ao infinito, estamos sempre ampliando a poética da cena. Então, sejam peças “abertas” ou “fechadas”, contemporâneas ou clássicas, quando nós criamos a cena, nós escrevemos juntos (como Pierre Menard, do Borges): somos plenamente autores. Somos Brecht, Mayorga, Nelson.

Como autor, quero dialogar com a nova poética da cena e, se possível, fazer o que muitos autores fazem hoje: a partir dessa poética proposta pelos diretores, propor novos desafios à cena, ser dramático e épico ao mesmo tempo. O que procuro é ter plena liberdade de falar dos temas que me motivam.

Como ator, pago uma dívida: a de não ter me dedicado mais a esse ofício essencial. O teatro é a arte do ator.

O Aderbal apresentador de tv é um diálogo tardio com meu tempo, eu que nunca dei muita bola pra televisão. Para fazer isso, criei minhas defesas: um estúdio com restos de cenários de peças minhas, um manifesto da anti-televisão (sendo eu um anti-entrevistador), a inspiração patafísica, referências de mestres de outras áreas da cultura e, finalmente, uma ilha de utopia onde posso conversar com artistas que conheço, que admiro, que quero conhecer…

OF. Ao que parece, apaixonou-se, de cara pelo texto “A Paz Perpétua”, ao traduzi-lo, do espanhol. Na versão publicada pela Cobogó, em seu texto de abertura, você dispara: “quem quiser traduzir como encenador tem que correr para chegar antes de mim”. Que qualidades vê no texto de Mayorga?

AFF. “A Paz Perpétua” trata de um tema contemporâneo, é o teatro falando do seu tempo. Mayorga é um dramaturgo maior. Nesse texto de abertura que você cita, destaco uma de suas virtudes: a de ser vários, de criar discursos diferentes e verdadeiros, não reduzir seus personagens ao pensamento do autor. Como Shakespeare. Em “A Paz Perpétua”, Mayorga mostra eloquentemente o que eu disse da natureza do autor contemporâneo: ele explora a nova poética do palco e vai além, propõe novos desafios à cena. Qual a medida de humanidade dos seus cachorros? Como expressar, no palco ilimitado, a dimensão homem-cachorro? Como traduzir em cena as complexidades dessa história?

OF. Conte-nos um pouco sobre a montagem do espetáculo “A Paz Perpétua”. Como lidar com personagens cães? Como está sendo trabalhar com elenco 100% masculino e com um conjunto de atores tão hetereogêneo?

AFF. O atores de “A Paz Perpétua” nem são um grupo tão heterogêneo assim. Loreto e Manoel são atores saídos da mesma escola, a CAL. João Velho é da melhor linhagem de atores, aqueles que vêm de família de atores, como no circo. Alex é um ator também dessa geração, com passagens por grupos, formação com diretores novos, etc. Todos são próximos. Talvez o mais distante deles seja o Gil. Mas o Gil é o cara que mais trabalhou comigo: fez todos os meus romances-em-cena, foi do Centro de Demolição do Espetáculo, já joga no meu time desde sempre. O Gil tem a cara do teatro que eu quero fazer.

É difícil dizer como tem sido o processo de ensaios. Tem o Fernando Philbert, com quem trabalho nos últimos 10 anos e que começou os ensaios enquanto eu ainda estava ensaiando “Céus”. Tem a companhia da Nil e do Sérgio Martins, uns produtores com quem vivi duas aventuras incríveis, “Hamlet” e “Depois do Film”. E depois tem uma mistura de método e loucura. Sou obstinado pelas formas e pelo valor revelador que elas têm. Não separo conteúdo e forma: foi assim que procurei, com esse time, prender os cachorros nos corpos dos homens, de onde eles querem fugir, escapar, mas onde ficam bem presos. É isso: os cachorros presos nos corpos dos homens, tentando escapar. Em uma cena da peça, eles se livram dessas jaulas (os homens) e o Humano trata de mantê-los presos pela coleira. Não dá pra dizer pouca coisa mais. E pra dizer muita coisa, não dá.

OF. Já esteve com duas montagens em cartaz ao mesmo tempo, como agora?

AFF. Já, algumas vezes. E às vezes mais de duas. Ainda recentemente, durante a temporada de Incêndios, tive um Vianinha em cartaz, algum tempo. O ruim é não ter nenhuma peça em cartaz. Aí, não existo. Diretor de teatro não é como diretor de cinema, cantor, pintor, escritor que existe sempre, nos seus livros, músicas, quadros, filmes, etc. Quando não tenho nenhuma peça em cartaz não sou ninguém. Fica só um cara parecido comigo, num apartamento pequeno em Ipanema.