FUTURO

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“Isso vai funcionar de alguma forma” sob a ótica de quatro diretoras

23 de fevereiro de 2018

Cristina Moura, Denise Stutz, Inez Viana e Rúbia Rodrigues comentam a experiência de compartilhar a direção do espetáculo. Uma criação artística múltipla a partir do encontro de 16 artistas mulheres, de diferentes linguagens.

 

OF. O projeto começou a partir de uma carta-convite sobre as questões que envolvem o feminino na atualidade. O que cada uma de vocês pensa a respeito deste tema?

 

Cristina Moura. As questões do feminino sempre estiveram presentes de alguma maneira em meu fazer artístico, mas foi muito interessante receber um convite para um projeto que se debruça especificamente nestes temas.  Estamos vivendo tempos de mudança e tempo em que não podemos retroceder. Discutir e encenar questões contemporâneas, a partir de um ponto de vista feminino, é muito bem-vindo e necessário. É tempo de se fazer entender, de abrir o debate sobre o feminino e sobre a mulher na atualidade, sobre a mulher brasileira hoje. Dar vez à mulher e também à mulher criadora. Não há um caminho ou resposta, mas acredito que nosso fazer artístico mostra possibilidades de um futuro mais potente e amplo, um futuro que desejamos para nós mulheres na nossa sociedade.

 

Denise Stutz. Esse projeto me  deu espaço para dialogar com mulheres de diferentes gerações sobre  o  tornar-se mulher agora nesse momento tão duro em que o país atravessa. Uma pergunta a ser atualizada a cada dia que acordamos. Penso que o “feminino   na atualidade” é uma discussão grande e profunda que vai  muito além do território que conheço e por isso  mesmo o que penso a respeito é que  preciso conhecer e refletir muito mais sobre um assunto que não se define como uma coisa só.

 

Inez Viana. O movimento feminista, desde sempre, procura resgatar o equilíbrio em relação à igualdade de direitos e à liberdade. Apesar de algumas conquistas, isso continua ainda hoje. Mas agora esse movimento está se fortalecendo de uma maneira contundente.

 

Rúbia Rodrigues. Pensar o feminino é de uma grandeza que não consigo palpar. Vejo na carta-convite alguns disparadores de pontos de partida e, nesse sentido, fagulhas para discussões que, dentro da nossa construção cultural, podem durar uma vida. Eu não ousaria em algumas linhas dar conta de dizer o que penso sobre o feminino na atualidade porque eu fracassaria. Meu poder de síntese não é bom e acho que acerca desse tema pensar em sintetizar é criar limites ou encaixotar aquilo que é imenso. E são por imposições de limites, por encaixotamentos, por cerceamentos, por castrações, por mutilações e uma série de violências (práticas e conceituais) que o feminino vem passando ao longo da História mundial. E é exatamente o oposto a isso que o feminino almeja, busca e luta muito por.

 

OF. Como foi a experiência de compartilhar a direção do espetáculo?

 

Cristina Moura. É muito rico e engrandecedor compartilhar a criação com as outras diretoras. De certa forma, tudo fluiu naturalmente, a troca de ideias foi sempre complementar e cada uma afirmou sua linguagem própria, ao mesmo tempo, exercitou a escuta para as demais.

 

Denise Stutz. Estamos agora começando o momento de compartilhamento da direção. Há  dois  dias  estamos juntas no espaço de ensaio. Para mim ainda é cedo para falar sobre a experiência do compartilhamento da direção.

 

Inez Viana. Foi, para mim, uma experiência muito enriquecedora, porque foi sobre a escuta e o olhar para o outro. Acho o processo bastante generoso e democrático, nesse sentido. Sobretudo, admiro demais todas as diretoras!

 

Rúbia Rodrigues. Toda essa experiência foi (e está sendo) incrível! É muito lindo ver como as diferenças se somam e como cada olhar é precioso nessa construção. Até porque se existe a tentativa de tanger o feminino é preciso colocar muita gente para conversar, para se ouvir, para falar (no nosso caso – e infelizmente – somos apenas quatro). É um processo de atenção redobrada. Apesar dos dissensos precisamos chegar a acordos. É preciso escutar muito atentamente a outra. É preciso ter espaço para questionar suas certezas. É preciso ter paciência para buscar respostas. E eu acho todo esse movimento muito bonito. Para mim, este é um processo de muito aprendizado.

 

OF. Qual o aspecto mais importante nesta criação artística múltipla?  

 

Cristina Moura. O encontro. A mistura. O risco. Estes são para mim os aspectos mais importantes deste projeto.  Para além, é claro, do próprio tema que é pensar a mulher contemporânea.

 

Denise Stutz. A colaboração, o diálogo e a troca de experiências.

 

Inez Viana. Entender o espetáculo sob vários olhares. Ampliar seu ponto de vista. Abrir mão de alguma cena ou parte dela para contemplar o todo.

 

Rúbia Rodrigues. Para reunir tanta gente que admiro M-U-I-T-O e trabalhar em conjunto com cada uma e com todas ao mesmo tempo, a escuta aguçada é crucial para que as falas não se sobreponham, mas se justaponham. E eu acredito que a justaposição é a potência criativa para um trabalho como esse de escritura múltipla. Os desejos precisam ser suportes e não fonte de disputas. A peça, em sua escritura, pressupõe o NÓS.

 

OF. Como foram as vivências e percepções das atrizes em cena?

 

Cristina Moura. Creio que este projeto é um belo desafio para as atrizes. Não só por se tratar de tema tão à flor da pele e pelo qual cada uma tem uma vivência. Mas também por se tratarem de diferentes diretoras e linguagens e possibilidades cênicas. Gostaria muito de parabenizar as atrizes pela entrega, confiança e disponibilidade artística.

 

Denise Stutz. É sempre delicado falar da perspectiva do outro. A vivência que eu tive com as atrizes foi  bastante intensa e prazerosa. Ainda não tinha trabalhado com elas, então tudo para mim foi, e ainda é,  muito novo. Está sendo uma grande descoberta.

 

Inez Viana. Fiquei incumbida de dirigir a cena com três atrizes. E tudo aconteceu a partir delas, das respostas aos estímulos e jogos propostos por mim, com excepcional entrega e confiança. Depois, quando se ampliou o processo, entraram as outras duas atrizes que também só trouxeram colaborações precisas e essenciais ao espetáculo.

 

Rúbia Rodrigues. Eu não posso responder como todo esse processo foi para elas. O que eu digo é que o diálogo sempre foi muito aberto. E essas atrizes são incríveis! Sempre com colocações muito contundentes e necessárias para construção da peça e, a cima de tudo, com contribuições para se pensar mundo. E imagino que deve estar sendo um trabalhão para elas. Dar conta de quatro diretoras também não é fácil! Tenho muito carinho por cada uma.