FUTURO

Marcia Milhazes Cia de Dança

Marcia Milhazes: “Esta Ocupação representa uma adorável carta de amor”

22 de dezembro de 2015

A bailarina, coreógrafa e diretora de uma das mais conceituadas companhias de dança do país conta detalhes da ocupação inédita no Oi Futuro Flamengo, onde diferentes linguagens artísticas dialogam entre si, e têm a dança como ponto de convergência. Ela fala também da parceria com a irmã, a pintora, gravadora e ilustradora Beatriz Milhazes, um dos nomes da arte contemporânea de maior ressonância no mundo.

OF. Como surgiu a ideia da Ocupação Artística no Oi Futuro?

MM. Pensar a Ocupação Artística no prédio do Oi Futuro foi realmente um instigante desafio de como entrelaçar vários meios artísticos para falar do sentido da  minha linguagem na dança, num espaço mais dedicado às artes visuais. Através da Ocupação, dividi a observação para esse núcleo de pesquisa que desenvolvo com a minha Companhia de Dança sobre o gesto, onde uma  complexa  estrutura do fazer desses corpos se estabelecem. O meu desejo é que a dança, as artes visuais, a fotografia, a videoinstalação, a música barroca  e  o Oi Futuro  sejam um só, como uma massa emocional que traga aos visitantes a valorização do humano nas sutilezas que estão ao nosso redor e dentro de nós. Esta Ocupação representa  uma adorável carta de amor que escrevi para àqueles que me permitam entrar nos seus valiosos tempos.

 

OF. Você e sua irmã Beatriz costumam trabalhar juntas em muitos espetáculos. Como é o processo de criação entre vocês duas?

MM. O meu processo de criação é bastante meticuloso, geralmente minhas obras coreográficas levam em torno de um ano para serem montadas. Todos os processos de pesquisa dos gestos, dramaturgia, direção artística e a maturação da busca da linguagem do corpo  são realizadas por mim. Muitos meios artísticos são parte fundamental na formatação da obra como um todo. Não necessito de música para construir os núcleos de gestos e narrativa. Geralmente trabalho individualmente com cada intérprete e em silêncio. Isto não  significa que a música não seja  parte importante nas minhas pesquisas. A cultura brasileira sempre foi um ponto fundamental nas minhas questões como artista  e nas minhas obras. Nela reside o meu  profundo interesse em tentar me aproximar, desvendar  as nossas sofisticadas e exuberantes raízes. Ter a minha irmã e grande artista plástica brasileira, Beatriz Milhazes, desenhando os meus cenários desde a criação da Companhia, é um privilégio!!! Beatriz é  minha melhor amiga  Temos um processo curioso, que falamos pouco no decorrer do desenvolvimento da obra,  e nunca ela assiste  um ensaio. Num determinado momento, ela me mostra as suas ideias, desenhos ou desenhos pintados com tinta, e assim começamos a solidificar as mesmas tornando-as reais para a vida desta nova obra que surge e seus caminhos.

 

OF. O que permeia seu trabalho como coreógrafa e diretora artística de uma das mais premiadas companhias de dança do país?

MM. Construir uma carreira, seja artística ou não,  significa um complexo universo de elementos, que todos os dias dissecamos na nossa labuta. A cada obra concluída, sinto a sensação  de que cresci um pouco mais  e estou apta para mergulhar em novos desafios, carregados de certezas, dúvidas, alegrias e medos. O conhecimento como liberdade sobre mim mesmo e o que desejo na  linguagem do gesto. Um valioso tempo de trabalho e  busca do  sentido de desejar ser uma artista.

 

OF. Qual a importância da família para a formação artística de vocês?

MM. Acredito que eu e minha irmã fomos realmente abençoadas por termos pais que estimularam sempre  a verdade, o amor pela sua cultura e raízes, não havendo fronteiras entre a complexidade de uma cultura tradicional/popular e erudita e o conhecimento. São vivências que guardamos dentro de nosso universo íntimo. Através delas, o olhar mais sensível no outro e nas coisas ao nosso redor. Essas memórias, acredito, nos tornaram mulheres que continuam lutando por suas causas artísticas e de vida.