FUTURO

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Mil e uma noites: Uma releitura contemporânea do mundo pelo prisma de um clássico

2 de agosto de 2018

Um texto clássico nos permite fazer a releitura atual do momento e do mundo em que vivemos. Com a gama de ações, sentimentos e sua universalidade, ele possibilita que a mensagem atinja a qualquer um, em qualquer lugar. Com essas visões, o pesquisador brasileiro de literatura árabe Mamede Mustafa Jarouche assina a consultoria teórica da peça que está cartaz no Oi Futuro e tem direção da Cia Teatro Voador Não Identificado.

Tradutor do clássico da literatura mundial “As Mil e Uma Noites”, o filho de libaneses nascido em Osasco ficou conhecido por traduzir as narrativas de Sherazade diretamente de manuscritos arábicos para o português e é considerado um dos maiores pesquisadores dessa literatura. Ele esteve no centro cultural para uma palestra e falou sobre sua a experiência com a peça e quais são seus planos para futuro.

O espetáculo “As Mil e Uma Noites”, fica em cartaz até 9 de setembro, de sexta a domingo às 20h. Com direção de Leandro Romano e dramaturgia de Gabriela Giffoni e Luiz Antonio Ribeiro, a montagem se divide em 33 sessões únicas onde, a cada noite, Sherazade narra uma história do livro original entrelaçada com depoimentos atuais de refugiados árabes. Além das histórias do livro, a peça pretende aproximar Brasil e Síria por meio de cenas que discutem a Primavera Árabe e o cenário político brasileiro.

 

Depois de uma década se dedicando a tradução do Livro das Mil e Uma Noites como foi fazer parte da construção dessa peça?

Mamede: Tive uma conversa com o Leonardo (um dos diretores da peça), depois conversei com os atores explicando o que no clássico é dramatizável e quais histórias eram mais adequadas. Eles estavam muito animados em interpretar um clássico.

Foi a primeira vez que Mil e Uma Noites vira peça?

Mamede: Isso já havia sido feito em São Paulo por um grupo da Unicamp. Eles pegaram “Mil e uma noites” e adaptaram para tradução contemporânea, mas não como aqui que está relacionado com a questão da imigração no Brasil. Aqui no Oi Futuro cada dia tem uma sessão diferente, com isso a peça tem um caráter único. A obra de arte como algo único.

Como podemos relacionar o clássico com o que vivemos nos dias de hoje no cenário político brasileiro?

Mamede: Todo ato que coloca um texto contemporâneo é um ato político. De alguma maneira você está instrumentalizado para discutir as questões do presente.

Para você qual é a definição de clássico?

Mamede: O clássico é a possibilidade de ler o seu mundo. A definição do clássico, nunca ninguém lê, você está sempre relendo. O ser clássico é a própria releitura. A releitura é um elemento significante do próprio significado. Como o texto que se relê o tempo todo, ele se molda a releitura que o tempo se dá. Todo texto clássico é clássico pela sua riqueza, pela gama de situações que ele envolve, pela amplitude das emoções, dos sentimentos, das convenções que estão presente ali. É sempre amplo. Por que você lê Odisseia? Por que você lê Mil e Uma noites? Odisseia é um texto compilado que começou a se produzir a mais de dois mil anos, e Mil e Uma Noites tem mais de um milênio. Por que você lê essas obras e consegue se identificar de alguma maneira com esta presente ali? Porque tem uma gama muito ampla de ações, de sentimentos. Não gosto de usar essa palavra, mas é a universalidade, aquilo que pode atingir a qualquer um, em qualquer lugar. 

Quais são seus planos para futuro?

Mamede: Levei dez anos para fazer 4 volumes. Estou traduzindo o quinto volume com os manuscritos dos séculos XIV e XV. É uma massa de texto caótica. Com muitas situações que fazem você visitar outras fontes. Além disso, comecei a traduzir um livro que é um tratado amoroso do século X, foi escrito em árabe na Espanha. Um tratado amoroso muito bonito que fala a coisa do amor, discute o amor à primeira vista, tem um capitulo que fala “daqueles que amaram por sonhar. Um cara está dormindo e sonha com uma mulher, ele se apaixona por uma mulher, ele sai em busca dessa mulher. É triste e fala de um poeta que morreu nessa procura.