FUTURO

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NANDO MOTTA E O MAIS NOVO ESPETÁCULO DA CIA AFETA

30 de abril de 2014

Ator e diretor, fundou em 2009, em Belo Horizonte, junto com a atriz, performer e produtora Ludmilla Ramalho, a Cia Afeta. Dois artistas com um desejo comum: dar vazão a seus anseios criativos, lançando mão de várias estéticas, linguagens, referências, tecnologias, e conceitos em um movimento antropofágico amplo e irrestrito. Bacharel em Interpretação Teatral pela Universidade Federal de Minas Gerais, com vários cursos de formação, Nando Motta apresenta no Oi Futuro o novo espetáculo da Cia, “#140 ou VÃO”, sobre as peculiaridades das atuais relações humanas, seus novos paradigmas e contradições. Imperdivel!!!

 

OF. A Cia Afeta tem como desafio tornar-se um laboratório, uma incubadora de um trabalho próprio em constante renovação. Como acontece o diálogo diretamente com o público?

 

NM. O diálogo acontece a todo momento e em tudo que fazemos. Seja quando criamos novos projetos e pensamos o que nos interessa dizer, quando procuramos estratégias de comunicação – o que pode nos afetar e principalmente o que temos a dizer com esse trabalho. Dialogamos na busca incessante de formas para que a experiência de assistir nossos trabalhos seja um evento especial e único. Criando ações como o Afeta Escola que tenta, à sua maneira, contribuir para uma formação e fomento de público com espetáculo e bate papos gratuitos para alunos de várias idades. Evoluindo nossos canais de comunicação com público (site, redes sociais, blog, etc) onde podemos partilhar nossas ideias e ouvir o público. Seja em uma boa conversa ao final do espetáculo ou convidando para tomar um café e falar sobre a vida. O diálogo esta aí. Presente o tempo todo. O público é para quem fazemos o que fazemos. Ele nos interessa e nos afeta muito.

 

OF. Um de seus espetáculos, “180 Dias de Inverno”, já foi assistido por 10 mil pessoas, além de ter sido contemplado com vários prêmios.  Na sua opinião, o que é preciso para agradar (e conquistar) a plateia?

 

NM. (Pausa com a mão no rosto pensando. Uma breve respiração. Nova pausa porém mais curta. Grande conclusão.). Não sei (risos). Toda vez que começo um projeto novo fico pensando que ele será o mais legal de todos. Mas depois acho que não. Depois acho que sim, e fico nesse movimento de vai não vai até ele acontecer.  O certo é que aceitei há tempos que isso é incontrolável e ponto. Então fico me policiando para não esperar nada além de muito trabalho em cada novo projeto. O que dá para fazer é acreditar nas suas ideias, ter verdade, ousadia, coragem de fazer, ter vários companheiros de profissão e criação junto contigo e ir. Ou como diria uma frase que li na internet e não sei de quem é (como quase tudo da internet): se você esta com medo, vai com medo mesmo. (risos). No final a gente vê se deu certo.

 

OF. Em sua nova empreitada, o #140, que estreia no Oi Futuro, a Cia lançará mão de uma série de referências para compor uma encenação com múltiplas camadas sensoriais e visuais. Pode dar alguns exemplos?

 

NM. Neste novo espetáculo convidamos várias artistas de diversas áreas para dividir o ato da criação. Todos com um propósito comum: contar uma história de amor nos dias de hoje. E todos com voz ativa em tudo. Aí, junte várias projeções a partir vídeo mapping e live cinema no cenário, figurinos e tudo que for possível, mais um dramaturgo carioca com um humor ácido, mais várias influências do cinema como Gustavo Taretto, Michael Haneke, Spike Jonze e Marc Foster na encenação e atuação, mais vários experimentos sonoros e musicais na trilha, mais um cenário reduzido a 1,5M2, mais um corpo afetado, mais dois atores criativos, mais toda e qualquer influência digital que todos estes artistas tiveram em sua vida, mais uma história de amor, mais  um monte de boas risadas e muito trabalho. Ponha tudo isso em choque e apresente ao público. E torça para que essa grande colcha de informações e estímulos (vídeos, textos, corpo, sons, espaço) consiga penetrar o universo do espectador e faça com que ele embarque nessa tentativa de responder a pergunta central deste trabalho: Como nos relacionamos hoje?

 

OF. Ainda sobre o #140. Neste espetáculo, vocês irão trabalhar dentro de um espaço muito reduzido em cena (1,5m2). Qual o motivo desta delimitação espacial?

 

NM. O principal motivo é que a história toda se passa em um elevador. Sempre fui fascinado pela ideia de que elevadores são um não lugar. Elevadores não têm importância como uma sala, um quarto, um lobby, etc. São considerados apenas um lugar apenas de passagem. Um lugar onde as pessoas são forçadas a um convívio social e muito vezes físico, mas que se esforçam muito para que isso não aconteça. Ninguém dá muita importância para elevadores, até que eles estraguem. Nunca tinha ouvido nenhuma história especial que se passou em elevador. Até dois anos atrás, quando um amigo me contou a melhor e mais rápida história de amor que já tinha ouvido na vida. E ela se passou inteira em um elevador. Mais precisamente durante 6 horas de uma noite onde tudo aconteceu. Depois disso várias perguntas foram surgindo: como se expressar de forma reduzida? Como falar? Como se movimentar? Como são afetados os gestos, as relações, os conflitos, as necessidades em espaços reduzidos? Como fica o olhar? Reduzido e expansivo. Intimo e público. Então decidi que a mola mestre para a formulação do meu novo projeto seria um elevador, e pronto. Começamos a investigar e dia 29 de maio apresentamos como conseguimos, ou não, responder essas e outras várias perguntas.

 

OF. Como você situa o teatro feito em Minas Gerais em relação ao que vem sendo produzido nos demais estados brasileiros?

 

NM. Estamos numa época boa. Temos muitos grupos já estabelecidos mostrando seu trabalho pelo Brasil e pelo mundo e cada vez mais jovens criadores cheios de ideias e desejos têm aparecido com seus grupos, companhias e coletivos. Temos um convívio intenso com o que tem sido feito em várias partes do Brasil. Vários artistas de outros estados estão vindo trabalhar conosco e nós estamos indo trabalhar com eles. E esse movimento me interessa muito. Acho que continuamos com a ousadia e a efervescência criativa de outras épocas  mas com um olhar cada vez mais agudo para o que estamos vivendo agora. Hoje a Cia Afeta está em dois estados. Eu, morando em São Paulo e minha parceira de Cia, Ludmilla Ramalho, em BH. Mas gosto de voltar para Belo Horizonte para realizar meus projetos. Gosto de estreiar em BH. Eu me sinto mais cobrado e isso me motiva. Acho que uma conversa com meus amigos, regada a pão de queijo e coca-cola é o meu melhor processo criativo. Essas montanhas me fazem bem. Mesmo que cada vez mais eu busque apresentar meu trabalho para além dos limites delas. Cada vez mais longe.