FUTURO

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O múltiplo Arthur Omar e a mostra “Outras Portas da Percepção”

28 de março de 2016

Um dos mais versáteis artistas brasileiros contemporâneos fala sobre a exposição em cartaz no Oi Futuro Flamengo.

OF. O conceito “Portas da Percepção” passa pela poesia de William Blake, é  retomado por Aldous Huxley  e deu origem ao nome do conjunto “The Doors”. E para você, como foi essa busca?

AO. Meu ponto de partida foi a ideia de porta. Algo que pode ser atravessado e que se abre e se fecha para outras dimensões. Daí o título: Outras Portas da Percepção. A Arte existe para isso. Mas A arte é apenas a porta. Mas o que está do outro lado, só posso descobrir transformando a mim mesmo através de intensificar minha percepção. No Oi Futuro, as três galerias são como que interligadas por portas. Uma galeria funciona como se fosse a outra dimensão  da galeria anterior. De uma galeria para a seguinte, eu quis que o visitante se sentisse como que realizando uma travessia ascensional.

OF. O que você deseja transmitir, esteticamente, para as pessoas que visitarem a exposição no Oi Futuro Flamengo?

 

AO. Antes de mais nada, uma experiência sensorial. A ideia desta exposição é mesclar imagens enigmáticas e não imediatamente reconhecíveis com conceitos e ideias sobre a prática da fotografia, mostrando que a imagem fotográfica não é apenas um registro do mundo, mas ela própria um mundo. A proposta de uma nova maneira de ver. Para isso deveriam servir todas as exposições. William Blake disse, no século XVIII, que o homem perceberia que cada coisa do mundo pode encerrar um número infinito de outras coisa, se soubesse como olhar para elas. Será que não se poderia fazer o mesmo a fotografia, e buscar o infinito através dela? Se as Portas da Percepção são muitas, há muitos caminhos a serem explorados. Chamei a exposição de Um Experimento Em Teoria da Imagem. Cada obra aqui é como se fosse um desafio ao visitante, um jogo. Posso fazer um estudo antropológico apenas olhando o movimento da areia e do vento. Um jogo para todas as idades.

OF. Fale um pouco sobre “A Menina do Brinco de Pérolas”, série já clássica de sua obra, que parte da imagem de Vermeer, e que ocupa uma das galerias do centro cultural.

AO. A imagem, a representação e seus códigos, sempre foi o meu tema principal. Por isso sempre utilizei alguns elementos da pintura clássica como experimentos para testar algumas teorias que orientam a minha prática concreta. Nesta exposição, A Menina Do Brinco de Pérolas, do holandês Vermeer, aparece cinco vezes como se fossem cinco personagens diferentes, isso como resultado do meu olhar que torna diferente essa imagem que já dura três séculos no imaginário ocidental, e é amada e reconhecida como um dos grandes momentos da arte do retrato. Mas na última galeria, eu cito outro holandês, Rembrandt, na figura do seu Moisés Quebrando as Tábuas da Lei. Talvez eu queira com esta exposição quebrar as regras da construção da imagem fotográfica… Será que eu consegui nesta exposição? Pergunta para o público.

OF. Você trabalha com cinema, vídeo, fotografia, instalações, música, poesia, desenho, além de ensaios e reflexões teóricas sobre o processo de criação e a natureza da imagem.  Como é atuar em todos esses campos?

AO. Meu trabalho é unificado pela ideia de pensamento e de beleza. O pensamento é mutável a cada momento, e a cada momento vai encontrar os meios materiais para sua expressão. Ficando próximo dele, eu posso decidir qual o melhor veículo para ideias novas que me ocorrem, sem precisar me prender a um campo já pré-definido da arte ou da cultura. Talvez o que eu esteja fazendo seja abrir um campo novo, em que essas divisões artificiais não mais necessitem  ser invocadas. Quanto a beleza, ela é o critério de impacto no cérebro do espectador ou do visitante, e todas as ideias que surgirem deverão passar pela porta do mundo sensorial, pela percepção, pela experiência direta, e não pelo pensamento conceitual. Pode parecer um paradoxo, mas em se tratando de arte, é só do paradoxo que estamos falando. Investigações não conceituais, para escavar novas zonas de percepção. Meu trabalho não é ciência, mas complementa o trabalho da ciência.

OF. Após esta série surpreendente de fotografias em “Outras Portas da Percepção”, existe algum outro projeto para o ano de 2016?

AO. Tenho vários projetos em andamento. O mais imediato é o livro Arthur Omar: Falas Sobre A Imagem, onde eu discuto de forma mais textual as diversas operações formais e conceituais que nortearam o meu trabalho nos últimos anos. Falo de fotografia, teoria da imagem, ciências cognitivas, cinema, teoria da montagem, e muitas surpresas poéticas que o leitor irá encontrar ao longo do livro. Desejo seja lido como um romance de ideias, ou um poema épico sobre a razão estética. Outro projeto em andamento é uma nova exposição, agora não tanto experimental e enigmática como esta, mas retomando meu trabalho de antropologia visual, porém utilizando os métodos que pude desenvolver nesse experimento para mim radical que foi Outras Portas da Percepção. E como isso, estarei cruzando outra porta, que até agora não sabia que existia…. Uma porta leva a outra. E eu não posso parar de atravessar o cenário.

 

 

Fotografia: Anna Oswaldo Cruz.