FUTURO

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O RIO SÃO FRANCISCO NA VISÃO MULTIMÍDIA DE DOIS MINEIROS

11 de dezembro de 2013

Gustavo Nolasco é jornalista, escritor e roteirista, teve passagem por grandes jornais mineiros e pela Assessoria de Imprensa do Governo de Minas Gerais. Leo Drumond é fotógrafo e também trabalhou em redações, como Folha de São Paulo e Hoje em Dia. Sócios da agência NITRO, onde desenvolvem importantes projetos culturais, eles são os autores da exposição multimídia “Os Chicos – O Rio São Francisco me contou…”, em exibição no Oi Futuro até 2 de fevereiro.

 

OF. Como surgiu a ideia de lançar a exposição multimídia “Os Chicos – O Rio São Francisco me contou …”?

Gustavo e Leo. A ideia surgiu da nossa vontade de continuar dando vida a este projeto que já completa 13 anos desde sua ideia inicial até sua concepção. O ápice de “Os Chicos” veio em 2011, quando lançamos o livro (em 2012, ele foi vencedor do Prêmio Jabuti, sendo eleito “livro do ano na categoria Fotografia”). Porém, foi mais de uma década de pesquisa; aproximadamente 100 dias em campo; correndo as beiradas do rio São Francisco, por mais de 50 localidades e quase o mesmo número de personagens documentados. Ou seja, percebemos que, mesmo produzindo dois livros (Os Chicos é dividido em “prosa” e “fotografia”) e um filme curta-metragem, havia muito material de qualidade na gaveta.
Daí veio a ideia de revisitar nosso material e fundir linguagens, mídias e enredos. Ao definirmos o conteúdo que levaríamos à exposição no Oi Futuro, ficamos extremamente felizes ao perceber que existe um conteúdo inédito que, esperamos, agradará até a quem já acompanha o projeto Os Chicos desde o seu nascedouro.
Aliado a isso, temos uma vontade enorme de fazer com que a discussão sobre os rumos que a população brasileira está dando para Rio São Francisco se mantenha viva e calorosa. Sendo assim, resolvemos fazer mais do que uma exposição multimídia com parte de material inédito: vamos provocar um grande debate entre profissionais que já realizaram trabalhos voltados para a comunidade ribeirinha deste que é o maior rio totalmente brasileiro. Daí o nome “o Rio São Francisco me contou”, pois na abertura do evento traremos jornalistas, fotógrafos e produtores culturais mineiros e pernambucanos para apresentarem seus trabalhos e assim, trocarem experiências.
Seria gratificante, no futuro, perceber que essa semente plantada no Oi Futuro se transforme em novos trabalhos voltados para a luta pela preservação ambiental e cultural do Velho Chico e de suas comunidades ribeirinhas.

OF. O que de mais inesquecível vocês guardaram durante o período em que percorreram o rio São Francisco?

Gustavo e Leo. Difícil escolher algo para simbolizar tudo que vivemos de inesquecível nesta jornada. Sob a ótica da fotografia, poderíamos citar as múltiplas possibilidades de imagens e composições que a diversidade do São Francisco oferece ao fotógrafo. Já sob o prisma da literatura, a riqueza de história, sensações e personagens diversos. Mas seria diminuir muito toda aquela experiência de mais de 100 dias.
São milhares de pequenas e grandes experiências que poderiam ser citadas, mas todas elas se tornam pedaços da justificativa maior, que é a concretização do amor incondicional ao interior do Brasil.

OF. E sobre a diversidade cultural na região, quais os aspectos mais relevantes?

Gustavo e Leo. O que fica claramente marcado, inclusive em nossos livros e na exposição inédita que montaremos para o Oi Futuro, é que o Rio São Francisco possui traços culturais muito distintos de região para região. A nossa pesquisa de campo comprovou a tese que defendíamos desde o início: apesar de ser um único rio, as pessoas que vivem às suas margens e suas comunidades são completamente diferentes entre si.
O Chico de Pirapora, em Minas Gerais, possui sotaques, formação sócio-cultural e tradições que não encontramos no Chico de Petrolina, em Pernambuco, por exemplo.
O brasileiro tem o péssimo hábito de conhecer a sua história de forma rasa e apenas teórica. Por exemplo, em qual livro de história está escrito que existe uma manifestação cultural secular chamada “Samba de Véio” que só é encontrada numa ilha cravada no meio do São Francisco (Ilha do Massangano, em Pernambuco)? Em qual escola do Brasil, os alunos aprendem qual a importância do São Francisco para a colonização do interior do país ainda no período do Império do ponto de vista da ocupação territorial?
O brasileiro costuma se transformar em caranguejo quando quer conhecer o seu próprio país, ou seja, só gosta de andar para os lados, no litoral; sempre de costas para o interior. E definitivamente, é no interior que está o que temos de mais rico, preservado e diverso da cultura brasileira.

OF. Por que escolheram o Oi Futuro para sediar a mostra?

Gustavo e Leo. Boa pergunta, ainda mais para aproveitar o gancho da última resposta. O Oi Futuro entra para a história da cultura de Belo Horizonte exatamente por apostar na possibilidade de sairmos da mesmice. É nele que a cidade pode, por anos, ter acesso gratuito a diversos artistas, pesquisadores, cientistas que contribuem para a experimentação.
Muito mais do que profissional, a equipe que está por trás deste templo da experimentação cultural deixa para sempre a marca na cena artística de Belo Horizonte por sempre acreditar que quem define o que quer é o público e nunca o usa para moldá-lo a fim de enquadrá-lo nas atrações que julga ser importante.
O Oi Futuro simboliza a base do que fizemos para criar essa exposição inédita: a experimentação.

OF. É o primeiro trabalho da dupla, o jornalista Gustavo Nolasco e o fotógrafo Leo Drumond?

Gustavo e Leo. Não é o primeiro trabalho, mas, com certeza, o mais significativo. Hoje somos sócios da agência NITRO, que já completa 10 anos em 2013. E foi a partir da experiência consolidada de parceria, troca de linguagens e complementação de mídias em Os Chicos, que estamos trabalhando para transformá-la num polo de criação de conteúdo diverso, onde navegamos entre várias linguagens (fotografia, audiovisual, literatura, educação patrimonial, entre outras).
Além de nós, a NITRO possui outros três sócios (Bruno Magalhães, João Marcos Rosa e Marcus Desimoni).Todos os dias, sentamos, os cinco, à mesma mesa de trabalho, que apelidamos de “liquidificador de ideias”. Se um chega com uma ideia, joga no bolo e quase sempre nasce um projeto coletivo. E sem dúvida, é daí que vem o nosso vício por contar boas histórias por meio de projetos culturais e documentais.