FUTURO

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OI FUTURO ENTREVISTA: FRANCISCO BOSCO

28 de março de 2013

Todo mês, o Oi Futuro traz entrevistas exclusivas com personalidades e nomes de peso do mundo da cultura, das artes e tecnologia.

Confira a seguir, a segunda entrevista de março, com o escritor Francisco Bosco.

Poeta, letrista, filósofo e escritor, parceiro e filho de João Bosco, Francisco é doutor em Teoria Literária pela UFRJ, colunista do Jornal O Globo e autor de inúmeros livros. Recentemente, lançou, “Alta Ajuda”, marcando a estreia da Foz Editora. Os ensaios reunidos nesta obra, que ele compara ao futebol de salão, representam as suas jogadas, ou seja, 35 textos publicados nos últimos sete anos, selecionados entre os do jornal O Globo e em veículos como as revistas Trip e Cult. O título do novo livro é um termo cunhado pelo compositor, músico e ensaísta José Miguel Wisnik, ao referir-se à naturalidade com que o jovem reflete sobre o amor, o sexo, a inveja, a insônia, o hábito de postar no facebook e toda sorte de compulsões contemporâneas. Francisco Bosco vai falar sobre tudo isso na próxima edição do projeto “Sempre Um Papo”, no Oi Futuro.

 

OF. Como surgiu a ideia de escrever o “Alta Ajuda”?

FB. Esse livro é uma continuação daquilo que tem caracterizado a minha escrita desde a publicação de “Banalogias” (2007): a procura de um olhar insuspeitado sobre questões da experiência comum, que às vezes, por tão comuns, passam desapercebidas. Gosto especialmente de uma definição do espírito filosófico que encontrei certa vez num livro do crítico Arthur Danto: “O filósofo é quem mostra que duas coisas aparentemente diferentes são no fundo iguais; e que duas coisas aparentemente iguais são no fundo diferentes”.  É desse espírito filosófico que é feito “Alta ajuda”. E as “coisas” com que lido são os dilemas da experiência comum – amor, sexo, futebol, drogas, amizade, política – os quais tento apresentar de uma maneira imprevista.

 

OF. Você é um estudioso, doutor em simiótica e linguagem. Isso o ajudou a resumir seu pensamento em textos curtos,  entre quatro e cinco páginas, sobre cada assunto?

FB. Penso ter herdado a característica da concisão com alguns de meus mestres maiores do pensamento, como Barthes e Nietzsche. No fundo, a concisão para mim é um dos atributos do prazer, e eu, como leitor e escritor, tenho um compromisso com o prazer. Isso marca também a relação oblíqua que mantenho com o universo dito acadêmico: diferentemente dos textos “acadêmicos”, privilegio as implicações às explicações e os fins aos meios. Por fim, a concisão é um traço decisivo do gênero ensaístico. Como disse Adorno, “o ensaio não começa com Adão e Eva”.

 

OF. No livro, há um texto sensacional  chamado “A Força do Pensamento Negativo”. Você poderia falar sobre isso?

FB. Basicamente, a sugestão é que o pensamento negativo é radicalmente transformador, enquanto o famigerado “pensamento positivo” é um consolo escapista paralisante. O que chamo de pensamento negativo é a via de aprofundamento da consciência de um problema psíquico estrutural; trata-se de aproveitar essa energia negativa para transformar sua direção no sentido oposto. Só se consegue isso pela via difícil do enfrentamento, da renúncia, da coragem, do ato. É essa a diferença entre a “alta ajuda” que proponho e a auto ajuda do “universo que conspira a seu favor”.

 

 

OF. Na sua coluna no jornal O Globo, você comparou seus ensaios  ao futebol de salão. Pode explicar?

FB. É uma metáfora sobre o método. Os grandes tratados e os pensamentos sistemáticos da filosofia são futebol de campo: ampla escala, muitos personagens conceituais, táticas complicadas, batalhas épicas. O ensaísmo é o futebol de salão: espaço menor, dribles curtos, proximidade com o gol (os argumentos estão próximos da conclusão, sem precisarem atravessar séculos para chegarem até ela). Meu ideal, na verdade, não é nem o futebol de campo, nem o de salão, mas o de rua: lúdico, desinteressado, diretamente ligado às condições do território, palco para a inventividade e a surpresa.

 

OF. Ensaísta e letrista, filho de João Bosco, um dos maiores nomes da música popular brasileira. Qual foi a maior herança recebida de seu pai?

FB. Sem dúvida a extrema dedicação ao dom.

 

Curtiu? No próximo mês, o Oi Futuro entrevista Nelson Motta.

Confira também a entrevista com Heloísa Buarque de Holanda.