FUTURO

Marco Pierini 1

“Paik sempre foi um artista Fluxus”

1 de julho de 2017

Curador da exposição do artista sul coreano Nam June Paik, em cartaz no Oi Futuro Flamengo, o italiano Marco Pierini fala sobre a obra de um dos nomes centrais da convergência de linguagens na arte a partir da década de 1960.

Historiador de arte, doutor em Estética pela Università degli Studi di Siena e filósofo, Pierini, 51 anos, é diretor da Galleria Nazionale dell’Umbria, em Perugia. Foi diretor da Galleria Civica (2010-2014), em Módena, e do Centro d’Arte Contemporanea Palazzo delle Papesse, em Siena (2002-2010). Como professor, foi titular de história da arte contemporânea na Accademia di Belle Arti di Carrara e dos cursos de arte contemporânea, mídia e filosofia da imagem na Università degli Studi di Siena. Publicou mais de 200 artigos sobre arte, estética e música.

OF. Quando e como o senhor se aproximou da obra de Nam June Paik?
MP. Eu me aproximei da obra de Nam June Paik muito cedo, por conta do meu interesse pessoal e dos meus estudos sobre a relação entre arte e música. Nos últimos 10 anos, eu tive a oportunidade de aprofundar meus conhecimentos sobre o trabalho de Paik em três diversas ocasiões, devido à realização de mostras na Itália – em Siena e Modena – e na França, em Saint-Etienne. A primeira mostra tratava da relação entre a arte e o rock; a segunda era sobre a presença de Nam June Paik na Itália e a última era uma exposição coletiva, sobre o Fluxus, onde me ocupei do aspecto performático na obra do artista, principalmente das performances que ele realizou com a violoncelista Charlotte Moorman. Apesar de não ter tido a oportunidade de conhecer Paik pessoalmente, trabalhando com sua obra, me senti como se nós fossemos velhos amigos.

OF. Qual a importância do movimento Fluxus na trajetória artística de Paik?
MP. O movimento Fluxus, pelo menos na primeira década da atividade artística de Paik, foi realmente fundamental para o seu percurso. Porém, mais do que uma influência para Paik, era um “lugar” onde tudo era possível, onde se podia experimentar com o corpo, o som, o vídeo e até mesmos trabalhar com os materiais e técnicas tradicionais da arte. De qualquer modo, podemos dizer que Paik sempre foi um artista Fluxus, desde o seu início como artista, e continuou sendo, mesmo depois do fim do movimento artístico.

OF. Fale um pouco sobre a exposição que chega ao Oi Futuro.
MP. A exposição mostra, essencialmente, a produção artística tardia de Nam June Paik, um momento que considero de grande valor. É quando à videoinstalação, à performance, às obras sonoras e à pintura são incorporadas as obras ditas “satelitares” (transmissões televisivas via satélite com imagens mixadas e modificadas em tempo real por Paik) e os robôs, chamados ironicamente de esculturas. São obras compostas por objetos de tecnologia ultrapassada _ rádios e televisores antigos, por exemplo. Também apresentaremos ao público uma espécie de “degustação” do que era a colaboração entre Paik e a violoncelista Charlotte Moorman, cúmplice de boa parte de suas performances e videoinstalações.

OF. Como foram selecionadas as peças que fazem parte desta mostra?
MP.  A maior parte das obras ilustram também a relação de Paik com a colecionadora e galerista italiana Antonina Zaru. Várias obras do artista foram, de fato, adquiridas, encomendadas ou até mesmo sugeridas por Antonina à Paik nos anos em que colaboraram, até a morte do artista, em 2006. Antonina Zaru faleceu poucos anos depois.

OF. Com os avanços da tecnologia, que permitem ampliar o leque de suas possibilidades criativas, como o senhor situa a videoarte nos dias de hoje?
MP. A videoarte, deixando para trás os anos de Paik, Vostell, Nauman, Acconci, verdadeiros pioneiros no segmento, é, há algumas décadas uma forma de expressão – não somente técnica -, amplamente difundida e utilizada de maneira não exclusiva pelos artistas. É cada vez maior o número de artistas que usam o vídeo como ferramenta no próprio trabalho e não são exatamente videomakers. Então, eu acredito que o futuro da videoarte é estritamente ligado ao futuro da arte contemporânea e, desse modo, irá acompanhá-la no que diz respeito à pesquisa, para o bem e para o mal, sendo parte integrante e indispensável do sistema da arte.