FUTURO

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Por que você precisa saber quem foi Nam June Paik

22 de junho de 2017

Em 9 de junho de 1998, um Bill Clinton já alvejado pelas denúncias de que havia feito sexo oral com a estagiária Monica Lewinsky na Casa Branca recebia cumprimentos no tradicional jantar do presidente dos EUA com a imprensa estrangeira. Na fila, estava um homem de feições orientais, com um casaco de chuva pouco condizente com os trajes de gala ao redor, andando apoiado por uma pequena escada, desta que usamos para trocar uma lâmpada ou buscar algo na parte mais alta da estante. Enquanto os dois apertam as mãos… o homem simplesmente deixa cair as calças. O presidente olha para o senhor sem calças sem querer mostrar alguma reação de espanto com a menção abaixo da cintura à sua fama de predador sexual, e a fila anda.

Nam June Paik, o sul-coreano capaz de extrema ousadia em fazer uma crítica política, morreu em 2006. Mas deixou um legado de experimentação que pode ser visto em parte a partir de 27 de junho no Oi Futuro. “A ação é uma espécie de inserção de arte no grande circuito comercial televisivo: o artista sabia que as câmeras do mundo inteiro estariam focalizando o evento, procedimento que, posteriormente foi utilizado por diversos outros artistas”, diz o artista, poeta e músico André Sheik sobre a performance de Paik na Casa Branca, uma de suas preferidas. E é um bom exemplo de um sentido que pode ser extraído do trabalho de Paik. Provocador incansável, o sul-coreano dizia que usava a tecnologia “para odiá-la melhor”. Mas no fundo, o que ele fazia era traçar uma nova narrativa para a era digital. “Ele compunha através de telas e criava um híbrido entre a imagem e o real”, explica Kátia Maciel, artista e professora da Escola de Comunicação da UFRJ. Analu Cunha, professora do Instituto de Artes da UERJ e de Videoarte na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, chama a atenção para como Paik aproveitou sua formação musical nas suas inovações. “Foi ele quem desenvolveu o sintetizador de imagens, a partir do sintetizador sonoro”, lembra. “O fato de ter efetivamente levado o pensamento musical para a arte dentro do espírito Fluxus foram, a meu ver, sua grande contribuição à arte como um todo, não exclusivamente à videoarte”, explica

Paik começou a sua carreira na Alemanha, com Joseph Beuys, o alemão que renovou a arte no pós-guerra ao proclamar que “todo mundo pode ser um artista”. Crença que foi seguida pelo Fluxus, movimento a que o sul-coreano e se juntou. O Fluxus buscava levar a arte para além dos museus e galerias na década de 1960 e fazer o espectador participar da obra, com o uso de elementos e formas não-usuais. Paik trabalhou no movimento com nomes como John Cage, Salvador Dalí, Laurie Anderson e Merce Cunningham. Influenciou a linguagem dos videoclipes – e dos artistas que passaram a usar o vídeo depois dele. “Tenho um vídeo, chamado Janelas, de 2003, derivado de uma videoinstalação homônima minha, onde aparece, por dois segundos (aos 0’38”), um trabalho do Paik em uma das tomadas”, conta Sheik. “Ele fazia parte da coleção da pessoa dona da casa onde gravei o vídeo, um dos meus primeiros. Foi aí que passei a prestar mais atenção ao trabalho dele”.

NAM JUNE PAIK NO OI FUTURO

A mostra “Nam June Paik” traz 15 obras do pioneiro da videoarte, que buscou na televisão também a matéria-prima para instalações e performances. Entre elas, “Sfera/Punto eletrônico” (1990-1992), com 26 monitores, três bolas de futebol, cinco pinturas a laser e um disco a laser; “Violoncello” (1989), formada por plexiglass e componentes de um violoncelo; e “Ecce Homo” (1989), uma das obras da “Série Robot”, objeto de interesse de Paik a partir de 1964. Todas estarão expostas no Oi Futuro.

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Com curadoria do italiano Marco Pierini, a mostra terá ainda a obra “Maria Callas”, que combina monitores de TV a vários objetos de uso cotidiano. Ela faz parte da época em que ele começara a utilizar aparelhos tecnológicos para criar esculturas antropomórficas, e representa a sua admiração pela ópera italiana. Paik dizia que a ópera “representa aquilo que procuro na arte eletrônica, no sentido de conseguir alcançar aquele grau de sucesso performático que a melhor ópera consegue alcançar”. “A exposição mostra, essencialmente, a produção tardia de Paik, que considero de grande valor. É quando a videoinstalação, a performance, as obras sonoras e a pintura são incorporadas às obras ditas ‘satelitares’ (transmissões televisivas via satélite com imagens mixadas e modificadas em tempo real por Paik) e aos robôs, chamados ironicamente de esculturas. São obras compostas por objetos de tecnologia ultrapassada – rádios e televisores antigos, por exemplo”, conta Pierini.

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