FUTURO

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Se Rasgum: experimentando a diversidade cultural

27 de novembro de 2018

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Diretamente de Belém, o Festival Se Rasgum mostra toda a potência da Região Norte do nosso país. Com mais de 25 shows de atrações nacionais e internacionais na programação, Renée Chalu, sócia da Se Rasgum Produções e produtora responsável pela idealização do festival, conta como a iniciativa transcende uma experiência que vai além da cena musical.

OF. Se você pudesse explicar o festival para alguém que nunca foi, o que você diria?

RC. Nos palcos do Festival Se Rasgum a programação varre o que há de mais interessante naquele ano rolando por todo o Brasil. Desde as apostas nacionais até as internacionais – sempre escolhidas com muito cuidado. Na platéia você encontra um público faminto por novidade, que se debulha em lágrimas e perde a voz vendo a nova música brasileira e paraense acontecer ali na sua frente. O Se Rasgum sempre prezou por shows inéditos na cidade, o que na soma garante mais de 500 apresentações, em que a maioria delas são de coisas que fizeram trajetória nessa recente história da música brasileira 00. E não apenas dentro do Festival, mas fora dele, você encontra uma Belém em sintonia com coisas boas, com um acolhimento quase uruguaio e, definitivamente, um calor humano úmido e fritante. A experiência de vir ao Festival Se Rasgum vai muito além da música, mas se mistura com os sabores, temperos e o ritmo do povo paraense.

OF. Como o festival contribui com novas propostas que envolvem inovação e criatividade? Qual o legado que o evento deixa para o público?

RC. No nosso trabalho de curadoria buscamos muito entender o que as novas gerações esperam da nossa programação. E isso é percebido de diversas formas: redes sociais, pequenos shows no circuito alternativo de Belém. Nós somos pessoas que vamos a shows e tentamos radiografar a nova música produzida na nossa cidade e no nosso país. Acho que isso atesta bastante credibilidade a quem se propõe a inovar e criar. Mesmo no nosso processo criativo de identidade visual e tema, temos longas conversas e pesquisas que nos fazem chegar a um trabalho que gostamos de apresentar. Um ponto muito importante dentro de toda essa custura é que grande parte das bandas que estão na crista da onda fazem questão de tocar nos palcos do Festival Se Rasgum. Como isso, a nova cena se alimenta ali, frente a frente, do que há de novo e de referências que bebem nos clássicos e vice-versa, de clássicos que se reinventam.

OF. De que forma a diversidade de artistas e bandas presentes na programação contribui para debates atuais?

RC. O nosso grande mote sempre foi a diversidade. Foi esse o tema que sempre levantamos desde a primeira edição do Festival Se Rasgum. Se há uma coisa que a cena paraense mostra pro Brasil é exatamente essa pluralidade musical. Temos grandes artistas de carimbó, tecnobrega, rock, guitarrada, rap e toda uma levada que contém misturas que rompem padrões e alimentam o espírito criativo de quem vive música no Brasil. Talvez esse seja o maior combustível para que Belém seja uma cidade musicalmente rica e criativa.

OF. Sabemos que o Festival não se restringe à música. O que mais compõe a programação e quais os impacto disso na região Norte do Brasil e para além dela?

RC. Entendemos que fazer festival vai muito além de colocar uma banda no palco. Temos um mercado da música em formação, uma economia criativa incipiente ainda, uma distância geográfica que não nos permite tantas ousadias. Por isso, além do Festival Se Rasgum, fazemos o Festival Sonido, gratuito no Ver o Peso, dando resultado direto para a vida de simples permissionários que trabalham no mercado, mostrando novidades e abrindo os olhos e ouvidos do público atento. Buscamos também levar oficinas, palestras e debates que impulsionam diretamente esse mercado. Precisamos formar novos profissionais e fazer com que a música brasileira e paraense seja uma máquina capaz de mudar o Brasil, de avançar em questões sociais, políticas e econômicas.

OF. Qual a importância de um festival como esse para artistas independentes?

RC. Acho que não tem nada mais desafiador do que você enxergar uma cena musical que queria fazer parte, mas colocando a sua verdade e seu poder de mudança ali. A música independente é a maior força política que podemos ter nos dias de hoje, e foi ela quem sempre questionou o sistema, os padrões e tudo o que precisa ser questionado. Quando se tem artistas com essa mesma linguagem e expressão, se tem o crescimento de um movimento. Não precisamos ampliar nosso público todos os anos, precisamos que ele se renove e se conscientize.