FUTURO

Tadeus-Mucelli_ crédito Bruna Finelli (1)

Tadeus Mucelli: “A arte é o lugar da experimentação e construção de utopias e de novas realidades”

6 de fevereiro de 2018

Artista audiovisual com trabalhos publicados e participações em eventos no Brasil e no exterior, o fundador do Festival de Arte Digital – FAD, em Belo Horizonte, Tadeus Mucelli fala sobre a primeira edição da Bienal de Arte Digital, que reúne no Oi Futuro exposições, performances e simpósios com a participação de mais de 30 artistas de diferentes países.

OF. O que o público vai encontrar nesta primeira edição da Bienal de Arte Digital, incluindo as principais atrações e as novidades que chegam pela primeira vez ao Brasil?

TM. A partir do tema “Linguagens Híbridas”, o público irá encontrar novas conceitualizações do que podemos compreender a respeito da arte computacional, digital, eletrônica e, principalmente, a arte e sua relação na contemporaneidade das sociedades. Instigamos o público a perceber as problematizações encontradas em nossas vidas através da arte e, por meio dela, buscarmos novos acoplamentos, para uma organização de sociedade, diferente dos atuais caminhos, principalmente no que tange o uso da informação e das tecnologias. Destaco uma percepção mais global da Bienal, uma percepção de mundos distintos e complementares, onde o público terá contato com trabalhos de biotecnologia e bio-criação, altamente desenvolvidos, e também esse mesmo público se encontrar e conectar-se aos processos tão pioneiros na história da humanidade quanto também inovadores.

OF. Você pretende trazer para debate a experimentação de novas linguagens artísticas com o uso de novas ferramentas e tecnologias. Como foi a curadoria do evento e a seleção dos trabalhos escolhidos?

TM. Acredito que há um grande grupo de pessoas entre artistas, curadores, pesquisadores, profissionais de diversas áreas, pensadores e críticos no Brasil, principalmente, preocupados com o debate sobre a experimentação em diversos campos. Nas artes isso é mais comum. A arte é o lugar da experimentação e construção de utopias e de novas realidades. Mas no caminho do hibridismo que as artes tecnológicas tem nos levado, o encontro de outros campos tem levantado novas questões, novos objetivos e novos desafios do pensar e fazer arte. Foi com esta intenção que formamos um conselho curador convidado para esta nossa primeira Bienal, do qual estão representados, acadêmicos, artistas, profissionais técnicos, produtores de cultura, diretores de arte, entre outros, com a proposição de um olhar holístico sobre o hibridismo das linguagens e como seriam tais conceitos imbricados uns aos outros entre os vastos campos e áreas que acumulam a tríade arte , ciência e tecnologia. Diferente de Bienais tradicionais com curadorias paralelas, independentes, representações internacionais e etc, buscamos manter a prática do edital público de envio de trabalhos, onde os próprios interessados em participar da Bienal propunham seus trabalhos em conexão a temática “Linguagens Híbridas”. De 675 trabalhos enviados pelo edital, chegamos ao número final de cerca de 20 trabalhos para a Bienal.

OF. Fale sobre o simpósio internacional e os destaques da área de pensamento.

TM. As perguntas que o simpósio pretende trazer são a respeito do que podemos compreender enquanto híbrido na sociedade e nas artes. Mais do que pensar sobre as novas tecnologias e sobre a nossa performance diante das máquinas, das novidades da ciência, busca-se compreender o humano no uso de todas estas condições de indústria e política. O simpósio está composto de artistas, pensadores e acadêmicos. Joe Davis (MIT), sem dúvida, é uma honra tê-lo em nosso programa. Com 66 anos, é um dos mais importantes cientistas que temos com atuação nas artes, sempre trabalhando aspectos da vida e da arte, arte e biologia molecular. Possui uma visão sobre  o híbrido, e o hibridismo na vida de forma singular. Além dele temos nomes cariocas importantes, e que também já ao longo dos anos têm contribuído de forma grandiosa à reflexão nestes campos como Guto Nobrega, Bernardo Oliveira e Ivan Henriques.

OF. Você é o idealizador do FAD, que atua desde 2007 entre os eixos da arte, comunicação e tecnologia, nasceu em Belo Horizonte e, agora, traz a Bienal para o Rio. Pretende torná-la um evento nacional futuramente?

TM. Eu e o artista digital Henrique Roscoe, também fundador do FAD, percebemos que havia uma lacuna em Belo Horizonte e no Estado de Minas Gerais para o fomento por meio de um festival da criação de público e produção autoral de artes digitais. O FAD buscou dar continuidade a ações pioneiras, que tiveram início ha mais de 30 anos no Brasil, mas a partir de novas perspectivas possíveis diante de um cenário de políticas culturais vigentes e fortalecidas favoráveis quando do seu surgimento no cenário cultural brasileiro. O que é realizado nesse momento é a produção da Bienal de Arte Digital como uma agenda para as artes no Brasil. Uma agenda necessária na perspectiva de uma sociedade imersa na informação, nas tecnologias conduzida por um capital voraz. Neste ano de 2018, a Bienal, convidada ao Rio pelo Oi Futuro, também circula por Belo Horizonte. A intenção é que a Bienal possa pertencer a uma agenda nacional, no sentido de sua representatividade e relevância na produção de novas dimensões críticas para a arte tecnológica no Brasil.

OF. O que o fez trilhar na área de artes digitais e como você vê, como pesquisador, esse campo nos próximos dez anos?

TM. Minha atuação nas artes partiu inicialmente de uma relação com a música, diante das possibilidades tecnológicas de produção não linear em softwares em meados de 1997, 98. Durante os últimos dez anos, e de maneira mais formal e acadêmica, foram produzidos arcabouços teórico-práticos que me conduziram a permanecer neste campo, pois quanto mais se escava nele, mais perguntas do que respostas me fazem me mover dentro dele. De maneira bastante particular, não conseguiria prever qualquer dimensão futurística a respeito das artes digitais e tecnológicas. Sobretudo porque por maior sujeição, rejeição  ou encantamento que tenhamos com um mundo a caminho do antropoceno, tanto na perspectiva da tecnofilia (otimistas) ou tecnofobia (pessimistas), algo me induz que devemos pensar sobre nós mesmos. E por isso pensar a sociedade a partir das artes. Pensá-la na perspectiva de que a arte digital é a nossa arte, então é preciso compreender sua linguagem. Nela vão estar contidas “chaves” possíveis de pensar o caminho que estamos tomando. Neste sentido, nos próximos 10 anos, é possível imaginar que as biocriações representem  cada vez mais linguagens de código, como o genético, e o estudo da informação ao campo das artes digitais seja um amplo e vasto cenário de exploração, na compreensão do que estaremos criticando e refletindo de nossa sociedade através desta arte agora tecno-híbrida.