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Takumã: “Os Kuikuros querem novos conhecimentos fora da aldeia”

2 de outubro de 2017

Depois de participar de um programa de residência com artistas cariocas e ingleses no Alto Xingu, o premiado cineasta Takumã Kuikuro, da Aldeia Iptase, vive a experiência no Rio de Janeiro, com dez integrantes de sua comunidade, e conta como o cinema entrou na sua vida. É mais uma criação do Festival Multiplicidade, com curadoria e direção de Batman Zavareze, que chega ao Oi Futuro. O projeto é desenvolvido e produzido pelo People’s Palace Projects em parceria com AIKAX e NECCULT, e financiado pelo Arts and Humanities Research Council (AHRC) and The Global Challenges Research Fund.

OF. Em algumas entrevistas, você já declarou que ficou fascinado por uma câmera de vídeo, ainda criança. Foi como tudo começou?

TK. Quando eu tinha 12 anos uma equipe de TV visitou a minha aldeia e os ajudávamos carregando os equipamentos. Aos poucos, fui entendendo como era uma filmagem. Depois, veio uma pesquisadora japonesa e, quando ela filmava, as pessoas achavam que dentro da câmera havia uma boneca que falava – quando na verdade, era a gravação. Em 1999, a antropóloga Bruna Franchetto trouxe um professor do Rio, não me lembro o nome, para dar uma oficina. Ele ensinou enquadramento somente para cinco pessoas, e acabei me aproximando das câmeras com vontade de filmar. No início, a gente achava que estava gravando, mas esquecíamos de apertar o botão… Em 2002, o projeto “Vídeo nas Aldeias” chegou aqui no Xingu. Na época, não sabia o que era cinema, eu fazia torto e fora de foco, mas continuei interessado pelo mundo das câmeras.

OF. Os Kuikuros usam há décadas o cinema para defender e preservar sua cultura, utilizando esta linguagem artística para se apresentar ao mundo. Além desta, quais as características mais marcantes de sua comunidade, na aldeia Ipatse?

TK. O cinema chegou aqui na aldeia como uma arma para preservar nossa cultura. Nós não chamamos de cinema, mas de identidade do registro de nossa história, para ficar na memória de outras gerações. Este é o valor do cinema: documentar o que tem aqui. Já documentamos tudo que temos. Todos perceberam a importância do cinema na comunidade porque ele guardou os conhecimentos dos mais velhos. E assim, os mais jovens conseguem entender como preservar a nossa cultura. Nós gravamos, além do ritual e das festas, as músicas e as histórias na sequência como elas têm que ser ensinadas. Através do cinema, estamos nos conhecendo, mas não só os Kuikuros. É uma troca de olhares importantes entre todos os povos indígenas do Brasil. Estamos mostrando quem são esses os povos para o mundo. Hoje, estudamos vários assuntos. Já tem Kuikuro formado em Português, na universidade, para enfrentarmos e denunciarmos os nossos problemas com mais consciência.

OF. Como foi a sua formação teórica e prática no campo do audiovisual?

TK. A teoria foi muito difícil, mas quando pratiquei, fui aprendendo. Quando eu estudei na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, no Rio de Janeiro, tive aula teórica, mas só aprendi fazendo.

OF. Você dirigiu diversos filmes e, muitos deles circulam em festivais em todo o mundo. Quais os trabalhos que mais marcaram a sua trajetória como cineasta?

TK. Eu fiz vários filmes que já circularam no Brasil e no mundo, mas depois do meu primeiro longa-metragem, “As Hipermulheres” (2011), entrou em circuito comercial, fui chamado pela primeira vez de cineasta. Isso ficou marcado como um filme de cineasta, e não um filme de documentação, como faz um antropólogo. Entrou no Netflix, e fui considerado no meio como um cineasta brasileiro.

OF. Qual a sua expectativa em relação à residência artística no Alto Xingu e, posteriormente, no Rio de Janeiro, durante o Festival Multiplicidade?

TK. Na verdade, esta residência artística é um sonho para os Kuikuros. Era uma ideia que não parecia que ia acontecer, e agora enxergamos como um fruto que vai nascer para a comunidade, juntando artistas indígenas e outros de fora, cariocas e ingleses. Quando surgiu esta proposta de conhecer artistas de cinema, atores e fotógrafos, eu fiquei muito curioso. Queremos que aconteça para sempre. Estamos com uma expectativa de ir para o Rio e conhecer também Londres e outros lugares do mundo. Os Kuikuros querem novos conhecimentos fora da aldeia.